17.11.11 | Poema (by João Saboga) on "Paris Courthouse Project"

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Photos by Zoraima de Figueiredo
*Nascido para isto
Dentro disto
Enquanto os moribundos sorriem
E a Dona Morte ri
E os elevadores caem
E as paisagens políticas se dissolvem
Nós
Nascemos para isto
Dentro disto
Dentro destas guerras cuidadosamente insanas
Da visão de fábricas com as janelas partidas para o vazio
De bares onde as pessoas já não falam umas com as outras
De lutas com punhos que acabam em tiroteios e facadas
Nascemos para fazer parte disto
***Para ouvir o terror através das paredes e caminhar toda a noite com os sapatos manchados de sangue
Para acordarmos embrulhados no vazio e na falta de memória
*Nascemos para isto
Aqui
Num país onde as prisões estão cheias e os manicómios fechados
Num sitio onde as massas promovem os idiotas a heróis ricos
Nascidos para isto
A caminhar e a viver através disto
A morrer por causa disto
Mudos por causa disto
Castrados
Escarnecidos
Deserdados
Por causa disto
Enganados por isto
Desprezados por isto
Levados à loucura e à doença por isto
Levados à violência
À desumanidade
Por isto.
Os dedos procuram a garganta
A arma
A faca
A bomba
Os dedos estendem-se em direcção a um deus irresponsável
Os dedos procuram a garrafa
O comprimido
O pó
***E o eco repete
Até aqui tudo bem
Até aqui tudo bem
Até aqui tudo bem
E eu
Em queda lenta
Em tortura lenta
Com o vento a gritar-me ódio aos ouvidos e a espernear como um cavalo alucinado em direcção ao abismo
Lá em baixo
Vê-se tão bem daqui
Ruas pavimentadas a sangue
Cabeças partidas
Braços e pernas partidos
Dentes em cacos
Nada para a frente
Para trás
Para a frente
Para trás
Para trás
Para trás
Para trás
A repetição repete a repetição
A repetição torna a memória volúvel como uma droga monótona
Há muito que perdemos a nossa inocência etc etc.
**Eu vi os melhores da minha geração destruídos pela loucura.
***Vê-se tudo tão bem daqui.
Cães uivam
Mulheres no deserto
Uma vida de aventura com estrelas em carros, luas românticas de mau gosto e toda essa morte amor e armas de Hollywood a desaguar dos cinemas em reposições contínuas
Violência
Púrpura
Branco
Há muito que perdemos a nossa inocência.
Entre nós
Respeito nenhum
Entre nós respeito nenhum.
Uma vida de aventura em breve aqui.
Aqui espera-se.
Dia após dia
Novas fornadas de crédulos
Anjos em elevadores
Ferozes como a merda de um deus pagão esquecido combatem o ar imóvel
Nem sangue nem satisfação.
Não peguem fogo a tudo
Não peguem fogo a tudo sem mim.
Aqui
Portas fechadas
Janelas fechadas
A mobília disposta
Para um maior conforto
Cada um com o seu lugar
No seu lugar
Aqui
Longe do caos.
Ninguém sai
Ninguém quer sair
Tudo está à venda.
______
* excerto de Dinosauria We de Charles Bukowski
**excerto de Howl de Alen Ginsberg
*** Posso Pegar Fogo à Cidade, Mãe? de João Saboga
* e ** traduzidos do inglês por João Saboga