Urban Proposal for Esquilino (Rome, Italia)
[PT]
Ao longo da história, as cidades têm vindo a ser construídas por camadas que se vão sobrepondo. As diferentes civilizações instalam-se umas sobre as outras, alterando a antecedente ou destruindo-a. Contudo, com a recente emergência das ciências sociais que estudam o passado, começou a valorizar-se a memória, a história e o património.
Roma é um exemplo paradigmático. Na mesma medida em que se pode ver alguns dos exemplos mais simbólicos da batalha entre culturas que provocava o aniquilamento e destruição da civilização derrotada, é um exemplo maior da musealização de uma cidade. Esta musealização tem momentos extraordinários como quando, na 2ª Grande Guerra Mundial, o património edificado é poupado da destruição, tido como um acto humanista, ainda que a barbárie sobre as pessoas se fizesse sentir nas ruas.
Ainda assim, esta ideia de património, tem tido consequências menos positivas no desenvolvimento da cidade que também devem ser discutidas. A impossibilidade do metropolitano poder chegar ao centro histórico carrega-o de meios de transporte com elevados consumos energéticos – do automóvel ao autocarro. A patrimonialização do conjunto edificado levou a uma difícil adaptação às necessidades contemporâneas, tendendo-se a privilegiar parecenças com o antigo sob o argumento da não descaracterização da imagem de cidade. Por fim, a cultura de cidade histórica levou a que as camadas sociais mais desfavorecidas fossem sendo afastadas do centro, para as quais os custos de aluguer e/ou manutenção da habitação se tornaram incomportáveis.
Se é verdade que Roma, sobretudo a partir dos anos 90, procura ir além da ideia da cidade histórica a partir de diversas intervenções de cariz contemporâneo de destacados arquitectos, fora do centro histórico [ABITARE (no. 408-2001), DOMUS (no. 832/2000)], também é verdade que a discussão em torno dos problemas de relação entre a cidade histórica e o fruir da vida contemporânea foi adiada.
A área de Esquilino é um exemplo disso mesmo. Por decisão administrativa ficou fora do “centro storico” e apenas Sta. Maria Maggiore e St Giovanni integram os principais roteiros turísticos da cidade. Ao mesmo passo que Esquilino perdeu relevância política ao não ser integrado no centro histórico, apesar dos inúmeros espaços de relevância, ganha um peso importantíssimo no desenho infraestrutural da cidade com um nó de transportes públicos que liga comboio, metro e autocarro - Termini.
Esquilino transformou-se num espaço intersticial, entre uma das mais importantes infraestruturas de transporte de Itália e a cidade histórica. Em “Verso Sud” (1992), Pasquale Pozzessere mostra um Esquilino marginal em que Paola e Eugenio circulam em deriva, numa caracterização bem mais real que os dados oficiais: 7.000 imigrantes em 22.000 habitantes.
A proposta que apresentamos pretende questionar alguns consensos instalados na forma de projectar cidade contemporânea e que são, por demais evidentes, em Roma.
Em primeiro lugar trabalha-se a ideia que se pode começar a projectar uma nova layer de cidade por cima da actual e que o desenvolvimento tecnológico permitirá o não esmagamento da cidade a que se sobrepõe. No contexto deste concurso, a forma que se apresenta não tem relevância. A partir da recriação de uma maqueta do “Orient Sector” (1959) [ANDREOTTI, Libero e COSTA, Xavier (1996) , “situacionistas – arte, política, urbanismo”, MACBA e ACTAR, Barcelona, pp. 153] de Constant, desenha-se uma megaestrutura, vaga e mutável, sobre a linha férrea. Este novo pedaço de cidade é mais que um novo edifício. É um condensador de dinâmicas urbanas que rejeita os muros da segregação, no conceito de Lefebvre. Para além de absorver o grosso das infraestruturas viárias (estradas e estacionamento) serve de espaço para a deriva urbana que permitirá coser a cidade cortada pela cicatriz da via férrea. Esquilino liberta-se do que a faz ser rejeitada pelo centro histórico e abre uma ponte para a dinâmica S. Lorenzo.
A forma não nos interessa. Construir a nova cidade implica justapor o domínio territorial e escolher caminhos, passagens e atalhos. A arquitectura deixa de ser definida pela sua forma, mas pelo espaço que a provoca e que nela contem.
A partir desta proposta, parece-nos fazer pouco sentido escolher um dos três locais sugeridos para intervir. Importa pensar nos três espaços como consequência do novo pólo aglutinador - a partir do momento em que se anula estacionamento, diminui o tráfego e aumenta a deriva, e de uma acção urbana libertadora.
Para cada lugar propõe-se derrubar todos os muros que impedem o acesso total a monumentos e jardins. Redesenham-se os pavimentos de forma a transformar a cidade num espaço de fruição e deriva.
Sous les pavés, la plage.